Guia pratico

Como fazer o médico levar a sua dor a sério

Se você já saiu de uma consulta ouvindo que a sua cólica é normal, e continuou com dor, o problema pode não ter sido a sua dor. Pode ter sido a forma como ela foi descrita.

"Tenho cólica forte" é uma frase que o consultório escuta dezenas de vezes por semana. Ela não diferencia nada. Já "nos últimos três ciclos faltei quatro dias de trabalho, a dor chegou a 9 em 10, o analgésico não resolveu e doeu também para evacuar no segundo dia" é outra conversa inteira.

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Primeiro: o que a ginecologia investiga junto

Isso importa porque muita mulher leva à consulta só a cólica e guarda o resto, achando que são queixas separadas. Não são.

A FEBRASGO, federação das sociedades brasileiras de ginecologia e obstetrícia, descreve um conjunto de manifestações investigadas em bloco, conhecido como os "6 Ds": dismenorreia, que é a cólica menstrual intensa; dispareunia, dor durante a relação sexual; disquesia, dor ao evacuar; e disúria, dor ou dificuldade para urinar. Somam-se a isso a dor pélvica crônica, que pode ocorrer ao longo de todo o mês independentemente da menstruação, e a dificuldade para engravidar.

Ou seja: dor ao evacuar e dor na relação não são assunto de outro médico. Entram na mesma investigação. Se você tem qualquer um desses e não contou, conte.

O registro de 3 ciclos

Três ciclos é o suficiente para um padrão aparecer. Anote por dia, em qualquer caderno ou no bloco de notas do celular:

O que anotarComo anotar
Dia do cicloConte a partir do primeiro dia de menstruação
Intensidade da dorDe 0 a 10, sem medo de usar números altos
Onde doeuBaixo ventre, lombar, pernas, ao evacuar, ao urinar, na relação
Impacto na rotinaTrabalhei normal / trabalhei com dor / faltei / fiquei deitada
MedicaçãoO que tomou e se resolveu, resolveu em parte ou não resolveu
FluxoLeve, moderado, intenso, com coágulos
IntestinoNormal, preso, solto, inchaço

A coluna que mais pesa na consulta é a do impacto na rotina. Dias de falta são um dado objetivo, difícil de relativizar, e comunicam gravidade melhor que qualquer adjetivo.

As perguntas para levar

Escreva num papel e leve. Se travar na hora, entregue o papel. Vale.

  1. "Pelo que eu descrevi, vale investigar endometriose?"
    Coloca o tema na mesa de forma direta, sem você ter que se autodiagnosticar.
  2. "Qual exame de imagem o senhor indica no meu caso?"
    Pergunta importante: na investigação de endometriose, o exame costuma ser o ultrassom transvaginal com preparo intestinal, ou a ressonância magnética de pelve. O transvaginal comum pode não mostrar o que se procura. Se você já fez um transvaginal comum e ele veio normal, isso sozinho não encerra a investigação.
  3. "Quais outras causas podem explicar essa dor?"
    Abre espaço para o diagnóstico diferencial em vez de fechar o assunto cedo demais.
  4. "Se o tratamento que vamos começar não melhorar, em quanto tempo reavaliamos?"
    Transforma a consulta em um plano com prazo, e não numa receita sem retorno marcado.
  5. "O que eu devo observar até a próxima consulta?"
    Define o que registrar e evita que você volte com a mesma descrição vaga.

Se você for minimizada, isso não é sobre você

Existe um motivo real para a investigação demorar, e não é falta de atenção sua. A própria FEBRASGO reconhece que o diagnóstico clínico de certeza é difícil e que há um atraso de anos entre o início dos sintomas e o reconhecimento da doença. O ginecologista Sergio Podgaec, da Comissão Especializada em Endometriose da FEBRASGO, aponta ainda que o quadro pode ser confundido com outras condições ginecológicas, como mioma e adenomiose.

Então, se você for dispensada sem investigação depois de apresentar um registro de três ciclos, isso é motivo legítimo para buscar uma segunda opinião. Não é ser difícil. É insistir por um motivo documentado.

Um aviso que precisa estar aqui

Nada nesta página diagnostica você, e nada aqui substitui consulta. O objetivo é exatamente o contrário: fazer você chegar ao consultório com informação melhor.

Dor pélvica súbita e muito intensa, com febre, desmaio ou sangramento fora do habitual, é motivo para procurar atendimento médico imediato, sem esperar consulta agendada.

Aviso: este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento com profissional de saúde qualificado. Em caso de dúvidas ou sintomas, procure um médico.

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